“Grandes vazamentos parecem uma traição interna” Greg Reisdorf, sobre Call of Duty
Greg Reisdorf passou cerca de 15 anos construindo o multiplayer de Call of Duty na Sledgehammer Games, com trabalho em jogos como WWII, Vanguard e o Modern Warfare 3 recente. Em conversa com a Hellcase e participação da Strafe Esports, ele abriu a caixa‑preta dessas decisões, da tensão com pros à forma como os estúdios lidam com vazamentos e com o próprio público.
Quando pros e devs batem de frente
É inegável que o jogo precisa funcionar ao mesmo tempo para casuais, grinders e jogadores profissionais, o que colocou Reisdorf em discussões constantes com pro players e com a própria liga sobre o que deveria ou não permanecer no sandbox. Ele descreveu essas discussões como longas e cansativas.
Ele lembra sessões de feedback que começavam com uma lista de rejeições por parte dos times.
“Sim, a gente discutiu isso bastante. Tiveram muitas conversas frustrantes com os pros e com a liga e tudo mais, porque você junta todos esses times e eles falam: ‘a gente não gosta dessa arma’.
E é tipo: ‘mas todo mundo joga com ela’. ‘A gente não gosta de UAV. A gente não gosta de minimapa’, ou qualquer outra coisa que você quiser citar.”
Para o time de multiplayer, esses elementos não eram simples botões de liga e desliga. Reisdorf reforça que cada ferramenta existia para sustentar outra parte do desenho do jogo.
“Então era meio que: ‘ok, a gente criou isso e ele está aqui porque equilibra este outro lado do jogo’.”
Ele também sente que uma parte da resistência vinha do costume. Jogadores que dominaram o título anterior não queriam, necessariamente, se adaptar a um conjunto diferente de forças e fraquezas.
“E chega um ponto em que você começa a descartar um pouco, porque é tipo: ‘isso não estava aí no ano passado. Você só está tentando jogar com o que jogou no ano passado’. Então, a gente força você a usar isso ou não?”
Essas escolhas definiam o tom de cada ano. Se o estúdio mantinha a linha, os pros precisavam se ajustar a uma nova meta. Se cedia em pontos demais, o público geral corria o risco de perder sistemas que davam estabilidade e leitura às partidas.
Um jogo só em vários modos
Reisdorf liga esses choques a um objetivo maior, que é fazer cada modo grande de Call of Duty soar como parte de um mesmo esporte. Warzone, o multiplayer tradicional e as filas ranqueadas precisavam falar a mesma língua, mesmo com ritmos bem diferentes.
Para explicar isso, ele recorreu ao beisebol.
“A ideia é que a própria marca esteja jogando o mesmo jogo entre o Warzone e o Call of Duty, ou o multiplayer, ou até Hearthstone, tendo ranqueado e casual e esse tipo de coisa.
As mecânicas em geral são as mesmas entre eles, e tentar manter isso igual no que as pessoas estão jogando é basicamente como beisebol da liga infantil e a Major League.”
Nessa comparação, os jogadores casuais ficam mais perto do t‑ball, enquanto os profissionais jogam na Major League. Todos ainda correm as mesmas bases, mas a distância, a pressão e a duração mudam.
“Eles jogam meio que o mesmo jogo. Correm pelas bases e tudo mais, mas as bases são mais curtas, os jogos não são tão longos, esse tipo de coisa. Então há áreas em que você pode ajustar, onde ainda sente que está jogando. ‘Eu sou um jogador de beisebol’, e você está jogando t‑ball ou o que for, ok, mas acho que em algum momento você precisa fazer isso, senão você vai irritar todo mundo.”
Para ele, isso significa aceitar que nenhum conjunto de regras agrada todos os grupos, mas manter as mecânicas centrais próximas o bastante para que o jogador consiga ir de um modo ao outro sem sentir que mudou de jogo.
Ações legais e a cultura dos leakers
A Strafe Esports também perguntou como ele enxerga o movimento recente da Activision para pressionar um grande leaker de Call of Duty a encerrar suas atividades, e onde entra o equilíbrio entre processo judicial e diálogo com a comunidade. Reisdorf começa pela ótica de negócio.
“Como empresa, a Activision precisa proteger a propriedade intelectual dela. Eles têm muito dinheiro investido em go to market, se não tomarem medidas legais isso vira um grande problema.”
Ao mesmo tempo, ele argumenta que olhar só para o perfil público erra a origem do problema. Na visão dele, grandes vazamentos raramente nascem de curiosidade fora da empresa. Eles começam dentro.
“A parte interessante é que esses vazamentos provavelmente vêm de uma fonte interna que está descontente e vaza as coisas para provar um ponto ou por algum tipo de ganho social. Ir diretamente atrás da pessoa que publica essa informação é, na real, a menor parte do quebra‑cabeça.”
Para ele, isso significa que o processo contra quem posta é só uma camada. O trabalho pesado está em descobrir onde aquele material saiu do estúdio pela primeira vez.
“Os vazamentos vão encontrar um jeito de sair, e eles realmente precisam achar a fonte interna e tomar medidas legais ali.”
Ou seja, o endurecimento só faz sentido se atacar tanto a conta que publica quanto a quebra interna que tornou aquelas postagens possíveis.
Como um vazamento bate dentro do time
Quando vazamentos aconteciam enquanto ele comandava o multiplayer, Reisdorf diz que o primeiro impacto era pessoal, dentro da equipe. Eles não só atrapalhavam o cronograma de revelações, mas abriam uma ferida sobre clima e confiança.
“Grandes vazamentos nunca são legais e passam a sensação de traição interna. Quem, dentro do time, está tão tiltado com um design a ponto de colocar a carreira em risco porque sente que não tem voz ou participação no jogo?”
Essa pergunta vai direto ao centro da cultura de time: alguém lá dentro se sentiu tão ignorado que decidiu arriscar a carreira só para colocar um build ou uma lista de recursos na rua.
Mesmo assim, ele reconhece que os vazamentos tinham um segundo lado. Quando surgiam cedo o bastante no ciclo, mostravam de forma crua como a base mais engajada lia as mudanças que estavam chegando, muito longe de qualquer marketing polido.
“Mas eles oferecem um vislumbre de validação antecipada de design. Se acontecem cedo o bastante, dá para mudar de rota e fazer ajustes com base no sentimento da comunidade central (se os desenvolvedores estiverem ouvindo e quiserem atender esse público).”
A condição entre parênteses é o ponto para ele. A reação só vira mudança de rota se o time ainda estiver disposto a escutar.
Orgulho, reputação e recusa em mudar
Na visão de Reisdorf, o maior risco aparece quando o estúdio se convence de que o público central já não entende mais o que é bom para o jogo. Ele descreve um tipo de raciocínio que viu de perto quando a reação externa batia de frente com os planos internos.
“Muitas vezes os desenvolvedores podem achar que estão acima do público central e afirmar: ‘o público não sabe o que quer ou o que é bom para ele’. Esse é um problema sério.”
Quando essa postura se instala, o retorno da comunidade, inclusive a resposta a vazamentos, vira barulho que não merece resposta. Ele liga esse comportamento diretamente à política interna e à imagem de cada um dentro da empresa.
“Na maior parte das vezes, muito tempo e esforço foram gastos internamente construindo consenso e reputação pessoal de saber o que é ‘bom’. Se o sentimento externo contradiz a opinião interna, orgulho, reputação e o próprio valor da pessoa para a empresa entram em jogo.”
Nesse ponto, segundo ele, as pessoas passam a proteger o próprio status em vez de revisitar escolhas.
“Autopreservação pode ser um fator bem forte para fazer alguém enfiar a cabeça na areia.”
Para um jogo vivo, com lançamentos anuais e atualizações constantes, essa recusa em ajustar a rota pesa mais do que qualquer mudança isolada de arma ou mapa.
O que tudo isso diz sobre Call of Duty
Nas três perguntas que fizemos, Reisdorf descreve um multiplayer que se sustenta em concessões difíceis. De um lado, ele lembra times profissionais rejeitando armas, UAVs ou até o minimapa, enquanto o grupo de design defendia essas peças como pilares que seguravam o resto do jogo para milhões de jogadores casuais. Do outro, ele puxa os grandes vazamentos para dentro do estúdio, como sintoma de frustração interna, e diz que ações legais só têm efeito real quando atacam também essa origem.
Ele também aponta para um descolamento cultural possível dentro de grandes equipes, em que anos de debate interno e construção de reputação pesam mais do que o que a base dedicada diz sobre um novo rumo. Nessa leitura, o feedback vindo de scrims, de redes sociais ou até de vazamentos deixa de ser incômodo e passa a ser um termômetro bruto de quão longe o time se afastou do público que mantém Call of Duty em alto nível competitivo e em filas cheias todos os anos.
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